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12/09/2008 13:06 O INÍCIO DA BRINCADEIRA Nossa, era Domingão a tarde, não tinha nada pra fazer, já podia até ouvir a vinheta pleonástica do campeonato Paulista na Globo. Algo lancinante, vale lembrar, não pelo jogo de futebol em si, mas pelo fato de ser dia de clássico (Corinthians X São Paulo) e, só de imaginar os comentários repletos de circunlóquios do Casagrande, já me irritava. Daí você me diz: “Assiste na Band, ora!”. E eu lhe respondo: Quem fala mais asneira, o Casão ou o Neto? Além disso, os dois são escancaradamente corinthianos e, se não bastasse, este último consegue ser fanática e ridiculamente mais torcedor alvinegro que comentarista, e ambos estão longe, mas muito longe da imparcialidade. Enfim, assistir TV de Domingo é algo praticamente funesto, mesmo, infelizmente, sendo futebol, a arte mais bela, prazerosa e bem remunerada do mundo. Sendo assim, eu que não ia ficar sofrendo, afinal, tinha um campeonato começando e eu já estava atrasado.
Não era nenhum torneio bancado por patrocinadores arremetendo verba a torto e à direita como o Paulistão . Mas o 1º Campeonato "O Campinho" possuía, sim, seu glamour. Além disso, os torcedores (geralmente namoradas) não são hostis nem mesmo com os adversários. Eles só fazem rir, ininterruptamente, rir. E os comentaristas são os próprios integrantes dos times que jogaram ou ainda irão jogar, que além de não torcerem pra ninguém, mantêm a imparcialidade (mesmo que falando somente baboseiras pra sacanear a galera). Se reparar bem, acredito, tem gente por lá com qualidade imensuravelmente maior que a de Casagrande e Neto.
E o mais legal é que, ao chegar lá, lógico, a galera não perdoou meu atraso, ao contrário dos campeonatos profissionais, e foi logo esculachando, atribuindo-me diversas tarefas concomitantes. Um gritava daqui, outro acolá. Nossa! Um alvoroço. E assim, nesse tom de brincadeira, fomos acertar os últimos detalhes para dar início à competição.
Era corta um arame daqui, bate com o martelo de lá, passa o alicate pra cá, carrega gol pra um canto, leva pra outro. Corre dum lado, corre do outro. Amarra, desamarra. Um chutando a bola no outro. Tudo na maior curtição. Todo mundo brincando. Era mais palhaçada que trabalho, tinha hora que dava até aquelas dores na “boca do estômago” de tanto rir.
E quando, enfim, tudo estava pronto, não dava nem coragem de enfrentar alguns daqueles que há pouco compartilhavam daquele momento que campeonato profissional algum oferece. Mas a brincadeira tinha de começar, afinal. Thiago Ferri | Deixe sua loucura aqui (0)
25/08/2008 15:11 UMA CRÔNICA RURAL Nasci no sítio. Eu, meus dois irmão e minha irmã. Tudo nascemo e crescemo em meio a terra, a natureza, os bicho, as pranta, as fruta... Eu sô o mais véio, depois vem meu irmão Zé, a Maria e o Tunico, o caçula.
Quando nossa mãe morreu, eu tinha só quinze ano. Maria, com dez, foi quem passô a fazê os serviço de casa. Nóis, os menino, ajudava meu pai na lida. O Zé desde pequeno já dava trabaio. Ficava recramano e enrolano o serviço. Falava que doía seu peito. Mentira! Só pra não trabaiá, o disgramado. Mas meu pai, preocupado cum possíver pobrema no coração, acreditava e num deixava ele fazê muito esforço.
A gente foi cresceno e continuava tocando a vida, ali mesmo, na roça. Mas o Zé sempre falava em ir embora. Dizia que ali não era lugar prele, que tava cansado de vivê no meio do esterco. Foi então que, quando eu tava cum vinte e um ano, meu pai morreu. Sofreu um enfarte. Aí o Zé, já cum dezenove, aproveitou pra ir de vez.
Primêro foi pra capitar. Ficô lá por um tempo, começô a trabaiá numa fábrica e então conheceu uma moça. Era a fia do seu chefe. Aí começaro a namorá contra o gosto do véi, pai da menina. Mais logo ele percebeu que num ia tê jeito. Então, pra sua fia num casá cum peão quarqué, trato logo de promovê o Zé prum cargo bão, que ganhava bastante. Aí, então, logo eles casaro, lá mermo na capitar. Ele nem convido a gente, só mando uma carta, como sempre fazia, dizeno que, enfim, ia casá ca tar moça.
Despois de casado foro morá na tar de europa. Ia abri uma fábrica lá e o sogro pediu pra ele ficá responsáver, porque ele num tinha mais idade pra morá fora e tomá conta dos negócio. Desde então, nunca mais deu notícia.
Enquanto isso, nóis três seguimo aqui nu sítio. Todo dia a merma coisa. Cordava cedo, tirava leite das vaca, tratava dus animar, panhava os ovo, aguava a horta, buscava água nu riacho, enfim, fazia tudo os serviço. Almoçava cedo, jantava cedo e drumia cedo. E assim nóis ia levano.
Agora, tô cum quase sessenta ano e ainda tô sortêro. Maria e Tunico tumeim num si casaro. Mais a gente num recrama não. Vivemo bem assim, aqui na roça. O pobrema é que, despois de tanto tempo sem dá notícia, o Zé mando uma carta essa semana. O disgramado, fia da mãe, disse que ta vortano e qué a parte dele nu sítio. Si caso nóis num tivé o dinhero é pra vende o sítio e reparti em quatro, pruque ele tumein tem direito. Ele disse que o véi, seu sogro, bateu cas bota e dexo todas fábrica prele, então ele vendeu a dos exterior e tá vindo embora. Ele falô que vai leva nóis tudo pra cidade, pra trabaiá na fábrica. Meu irmão Tunico, na hora que leu essa carta, num si guentô e disse:
- Mais o que que esse fia da mãe qué cu nosso sítio? Esse monte de fábrica já num tá bom prele não?
E eu tumein pensei iguar. Agora tamo nessa, esperano ele chegá pra vê o que vai sê de nóis. Pruque num temo condição de pagá a parte dele, e o disgramado tem razão, quando diz que tem direito de parte das terra.
Óia, confesso pruceis, Deus que me perdoe, mais toda noite, antes de drumi, eu rezo pra arguma coisa acontecê com esse lazarento no caminho e ele num vim assombra nóis. Fico imaginano uma purção de coisa. Mais, quando me dô conta, tô terminano a reza agradeceno o disgramado por, finarmente, tira nóis daqui.
Thiago Ferri | Deixe sua loucura aqui (1)
16/08/2008 12:54 O CAMPINHO Todos os domingos, por volta das quatro da tarde, nos reunimos num campinho de gramado alto, logo ali, no Parque do Povo. Cercado, também, dum mato alto, muito alto, aliás, “O Campinho” oferece um aconchego pitoresco, não que dali se faça uma vista sumptuosa, mas sim, no nosso quinhão, apenas nele, nos quedamos satisfeitos. Afinal, naquela caixa gramada, cercada por um tanto mais de grama, por aqueles instantes, concentra-se, num só, o mundo de todos nós; não que sejamos fúteis ou efêmeros a ponto de considerar poucos metros quadrados um mundo, pelo contrário, ali, naquele momento, nos encontramos diante do mesmo objetivo, que, acima de tudo, privilegia a perenidade de nossa amizade.
Sabemos que não somos mais crianças, contudo, adoramos brincar de bola naquela mistura de grama com terra, ou na lama, tendo em vista que nosso verão tem se caracterizado por chuvas torrenciais e O Campinho faz questão de representá-las através de poças localizadas, como nas laterais e num dos gols.
O mato alto ao qual me referi acima, aliás, será roçado logo-logo, pois terá início nosso campeonato primogênito. Criou-se uma equipe organizadora que se encarregou de toda estrutura do torneio, desde os sorteios dos times até os DJ´s que animarão os intervalos entre os jogos.
A magia, na verdade, se fará apenas quando a bola saracutiar pra valer, fazendo a areia e os fiapos de grama subirem faceiros sob o pisotear obstinado dos guerreiros, ora inertes nalgumas poças, ora estupefatos na grama úmida e escorregadia do “Campinho” de batalha. O importante, porém, é que, ao terminar dos jogos, nos abraçaremos, num gesto que conotará toda a amizade empregada na organização e disputa das partidas, independente dos resultados.
Aproveitando, portanto, o jargão que diz: “Todos entram em campo pra vencer”, consideramos, no entanto, que quem entra no Campinho já é um vencedor. Thiago Ferri | Deixe sua loucura aqui (1)
11/08/2008 11:31 POVO DOIDO... (Crônica ou artigo?) A moda agora é... Discutir se o assessor de imprensa, que trataremos aqui como AI, é ou não jornalista, no sentido intrínseco da coisa. Grandes nomes do jornalismo nacional debatem (e se debatem) com o intuito de provar por A + B sua posição. Uns são favoráveis e outros contra ao tal do AI (não o menininho do filme) ser considerado jornalista. Mais que isso, tentam definir, ou não, que não há a necessidade do diploma universitário de jornalismo para exercer a AI (que também não tem nada a ver com os Atos Institucionais, da época da ditadura; olha lá, hein).
A galerinha do contra adota como principal argumento o fato de que o dever do jornalista é para com o leitor, a população, sendo, assim, o “porta-voz” da verdade e dos fatos através da notícia. Para eles, os assessores não podem ser considerados jornalistas porque seu compromisso é com o assessorado, pois deve repassar à imprensa (e consequentemente à população) a verdade que melhor convir ao seu patrão. Dizem, ainda, que a missão da imprensa é democratizar a informação, representar os interesses do povo, fiscalizar o Estado e proteger os cidadãos contra o arbítrio (parece até discurso do PT, de antigamente, claro). Já o assessor tem por objetivo defender os interesses da companhia ou instituição e zelar por sua boa imagem. E esbravejam: “O assessor de imprensa não pratica a isenção ou imparcialidade que se exige do jornalista!”.
Enquanto isso, a turminha do “deixa disso” pondera (não menos convicta que a oposição) que, para exercer a AI, o profissional deve valer-se de ferramentas peculiares aos jornalistas (e os caras aí de cima, um tanto contrariados, concordam), portanto, deve ser uma pessoa com diploma universitário na área. Mas, o grande barato desse pessoal aqui, que, cá entre nós, vamos chamar de conservadores, é que eles metem a mão no vespeiro (mesmo!) para jogar por terra o argumento (da turma de lá) de que o AI não é independente e imparcial como o jornalista, por isso não pode ser classificado como tal. Veja só, eles dizem: “Queiramos ou não, tudo o que fazemos na vida segue uma ideologia. E na profissão de jornalista não é diferente. Os veículos de comunicação de massa, por mais independentes que possam parecer, têm uma linha ideológica e os jornalistas que ali trabalham são obrigados a segui-la”.
Eles prosseguem, argumentando que, mesmo na grande imprensa tradicional, o jornalismo só pode ser independente, crítico e imparcial (talvez) com os inimigos do patrão, porque com seus amigos, aliados políticos, “colaboradores” e anunciantes, não o será. E metem o pé na porta: “Na assessoria de imprensa, o interesse é explícito: apresentar o ponto de vista do assessorado. Não há engano: quem recebe um press release sabe quem é a fonte e que crédito tem. Já na grande imprensa, sujeita aos mais diversos tipos de pressão, os interesses estão escamoteados do leitor. Este recebe, muitas vezes, como verdade um ponto de vista que busca influenciar sua opinião, em vez de dar-lhe, simplesmente, elementos para formá-la”.
Abro, aqui, um parênteses, antes de seguir com o texto: pode esquecer tudo o que coloquei entre parênteses (com o perdão da redundância) diante a sigla AI, aí por cima (coisa chata essa repetição). Agora, diga-me se o tal do AI não pode, mesmo, ser o garotinho do filme? Afinal, a inteligência do assessor, bem como a do jornalista, é mesmo artificial, pois, apesar das ferramentas e recursos, entre eles a ética, que aprenderam na faculdade, têm de limitar-se às operações funcionais e mecânicas, impostas pela tal “linha editorial”, de seus donos. E o AI, assim como os jornalistas, também se faz pertinente quanto à comparação aos Atos Institucionais da ditadura (sem a malícia!). Ora bolas, afinal, os AI´s (da ditadura), nada mais foram do que decretos emitidos pelos militares como forma de legitimação e legalização de suas ações, que iam contra a constituição da época. Assim também vemos as arbitrariedades dos donos da notícia e dos patrões dos AI´s (agora sim, assessores), que fazem de tudo para legitimar e tornar fato (ou não) o que lhes convém. Fecha parênteses.
Daí, eles (voltando aos conservadores) ainda questionam, como argumento: “Quem é mais livre? O Assessor que estampa nos releases o resultado de um processo contra uma multinacional ou o jornalista que se vê impedido de publicar tal matéria, enviada pela assessoria, porque não está de acordo com a linha editorial, ou “fere” algum anunciante do jornal?”.
O negócio, permito-me intrometer na discussão do alto escalão do jornalismo brasileiro, é saber equilibrar as coisas. Se faz necessária, sim, uma formação jornalística para exercer a AI. Bem como não é nada ético o profissional trabalhar num veículo e, ainda assim, para complementar a renda (que é baixa, diga-se), fazer uns “bicos” de assessoria aqui e outro acolá. Porque, aí, convenhamos, haverá um trânsito livre e perigoso entre AI´s e redações, podendo criar um canal facilitador e anti-ético de publicação noticiosa de determinada empresa num determinado veículo.
É nessa hora que entram mais dois argumentos interessantes (um de cada lado): “É mais médico o profissional que trabalha para o governo em um hospital público do que o que trabalha para uma empresa, ou num consultório particular? Creio que ninguém discorde que todos são, igualmente, médicos. Por que haveria de ser diferente para os jornalistas que trabalham em jornais e os que trabalham em assessorias?”. O outro: “Assim como ocorre em Portugal, o jornalista que assume o papel de assessor deve-se licenciar (junto ao seu sindicato) da função antiga enquanto exerce a atual. Assim não haveria dúvidas sobre suas novas atribuições, tampouco de seu caráter ético”.
Está aí uma boa solução. Não é porque o profissional passou a trabalhar como AI que não é mais jornalista, já que tem formação acadêmica para tal. Mas, enquanto atuante nessa área, deveria ficar impedido de exercer o jornalismo em redações (por questões éticas, mesmo!). Mas, que fique bem claro, jornalista pode ser assessor de imprensa, sim senhor! Aliás, todo assessor deve ser, necessariamente, jornalista. Assim como ocorre na medicina, no direito, na engenharia e em tantas outras áreas, a AI é mais uma vertente que oferece oportunidade de emprego para o profissional do jornalismo, que se depara com redações cada vez mais enxutas. O que se pede, em ambos os segmentos, é o compromisso com a verdade.
Agora, pensando cá com meus botões, fico imaginando toda essa gangue de extraordinários jornalistas saindo após o expediente (lá pela meia-noite) e indo, todos juntos, tomar umazinha num boteco. Depois da terceira rodada, penso, o assunto (esse aí de cima, que você estava lendo até agora) vem à tona. E lá vão eles (se) debater, até tarde. A discussão prossegue até um deles se levantar para ir ao banheiro e tropeçar na própria perna esquerda. Daí eles percebem que já (se) debateram demais. E o resultado da discussão? Nenhum, ora. Com os jogadores que têm cada time, o placar fica sempre empatado.
Mas, me admira (mesmo), é a cara-de-pau da turma da oposição, em trazer para seu argumento o jornalismo português e suas definições para assessoria de imprensa, dando estes, para nós, humildes brasileiros, como soluções imitáveis. E logo eles, que sempre têm a pachorra de colocar na roda, sempre com muito humor, uma piadinha que duvida da inteligência de nossos colonizadores e nos eleva ao mais esperto e capcioso dos povos. Êta gente estranha. Deus me livre me misturar com esses tais de jornalistas. Povo doido, afinal.
Thiago Ferri | Deixe sua loucura aqui (1)
04/08/2008 13:29 Estilo Google Earth Era uma bela tarde de verão, céu azul e com rara limpidez em São Paulo, ainda mais por se tratar do mês de janeiro. Período de férias para quase todas as crianças e adolescentes, algumas pessoas buscavam diversão e descanso em viagens, outras, que por algum motivo não o podiam fazer, procuravam seu regozijo em clubes, parques e outros lazeres que lhes proporcionassem a pachorra desejada e, mais que tudo, os oferecesse segurança com suas entradas controladas e seletivas.
Enfim, era uma linda tarde. E eu, um destes que não puderam viajar em férias, numa prospecção de estilo Google Earth, avistei, transpassando os muros, grades, cercas elétricas, guaritas, seguranças e alarmes, um garoto em seu quarto enorme, todo cheio de brinquedos e aparelhos eletrônicos, paredes com pôsteres, cama grande e aconchegante. Ele estava diante o computador. Tinha a pele clara, como se vivesse há anos num país nevasco. Os olhos acompanhavam tal clareza, o cabelo, liso como seda; bem vestido, com olhar vidrado e ligeiro mau humor. Parecia não piscar diante o telemundo. Fitava, apenas, muito ligeiramente, o relógio de seu celular. Foi quando, de repente, num gesto desabrido, tomou algo às mãos, apertou-o e então voltou à posição anterior; era apenas o controle do ar-condicionado.
Não pude deixar de observar, também, que do lado de fora do muro, que cortava a cidade a perdê-lo de vista, havia seis garotos jogando bola-de-gûde na terra batida. Eram mirrados, tinham as cabeças raspadas, pele queimada do sol, alguns ralados pelo corpo, como joelhos e cotovelos, e mantinham-se sorridentes, às gargalhadas com seu jogo.
O garoto do quarto, numa última, porém não menos célere olhadela ao celular, levantou-se. E num ato de desespero, ao mesmo tempo, atirou-se sobre a cama e apanhou o controle da TV. Então, ao ligá-la, esboçou um leve sorriso, embalado pelo som de Lutar pelo que é meu. Manteve a expressão alegre durante todo o programa, interrompia-a, apenas, com alguns xingamentos durante o intervalo comercial.
Ao término da novelinha, levantou-se e, com um caminhar corcundo e desanimado, apanhou seu vídeo-game e pôs-se a jogar, travando uma interessante renhida com a máquina, movimentando as mãos e o controle como se acompanhassem o movimento real, posicionando a língua de um lado ao outro da boca.
Enquanto isso, os meninos de fora partiam, descalços, chutavam uma latinha de cerveja amassada, um para o outro, como se jogassem futebol. Até que um deles resolveu dar um pontapé mais forte e jogou-a em meio ao mato. Ao mesmo tempo, todos saíram correndo, como se disputassem uma corrida pela estreita viela de terra, que já não permitia a passagem de veículos devido ao volume de lixo e entulho acumulados em suas margens. Eles riam muito.
Confesso que, por alguns instantes, fui dominado por uma curiosidade prodigiosa em saber onde moravam, se estudavam e o quê os aguardava, pensei até em segui-los, mas regressei à minha mera condição de “mirone”. Resolvi, então, fechar as janelas de minha cobertura e pedir uma pizza.
Thiago Ferri | Deixe sua loucura aqui (0)
29/07/2008 13:56 Papo de BoleirA! Já me apaixonei algumas vezes, mas sempre por um príncipe encantado, uma blusa, uma calça, um sapato, uma idéia, sei lá, algo material ou ideológico. O que não entendo é como fui despertar tal sentimento por uma coisa tão estranha como o futebol.
Não me interpretem mal. Eu gosto de ver um bom desafio e fico feliz quando o meu clube vence uma partida. Mas se por acaso ele perde, termino o bife que me espera no prato e não penso mais no assunto. Não perco o apetite nem me falta o sono. Por isso, fico esmagada quando vejo os adeptos a chorar, a gritar e a rasgar camisas e bandeirolas depois de uma derrota.
E ainda mais entristecida fico, quando sei que, após tal derrota, há muitas mulheres por esse mundo afora que sofrem as conseqüências de um frango azarado do goleiro ou de um remate mal efetuado pelo atacante. Afinal, o que tem o futebol de tão extraordinário que altere de forma tão profunda a vida das pessoas? Provavelmente nunca o saberei.
Se calhar, é porque sou mulher. As mulheres não vêem futebol da mesma maneira que os homens. Eles dizem palavrões, nós dizemos ai meu Deus. Eles gritam, nós rangemos os dentes. Eles insultam o adversário numa falta, nós dizemos ai, ai, coitadinho dele, deve ter doído. Claro que uma mulher pode viver com intensidade uma partida - eu sou a prova disso -, mas só uma mulher é que pode refletir sobre a razão pela qual os homens trocam tudo por uma partida desse esporte, só uma mulher é capaz de deixar afazeres para acompanhar uma partida dessas ao lado de “seu homem”, só uma mulher é capaz de aprender a aprender sobre futebol (com o perdão da redundância), só uma mulher, assim como eu, é capaz de se tornar apaixonada por esse esporte ao ponto de torcer pelo time do namorado vencer – sendo o time dele rival do meu – apenas pra vê-lo feliz.
Por isso, podem dizer que futebol é coisa de homem, vou continuar assistindo da mesma forma. Aliás, se não o fosse, talvez não tivesse graça alguma.
* Quem escreveu fui eu, Thiago Ferri, mas, confesso, foi para minha namorada. Ela faz educação física e precisava entregar uma crônica sobre futebol. Aceitei o desafio, encarnei o personagem e discorri como um verdadeiro fanático, quer dizer, fanáticA. Mas um fanatismo feminino, diferente da grosseria que reveste a paixão futebolística masculina. Sem confusão, não sou gay. Nem homofóbico... Thiago Ferri | Deixe sua loucura aqui (2)
21/07/2008 21:34 VERDADES ABSOLUTAS Por esses dias, ao final duma tarde de quinta-feira, embarquei na estação de metrô da Vila Mariana. Cansado do bate-pernas que estive disposto durante todo o dia, apenas quedei-me prostrado num dos bancos, com a cabeça inclinada ao escoro no vidro e minha maleta ao colo, abraçada. Os sapatos apertavam-me, a gravata sufocava e o terno dava uma sensação térmica parecida com a dum epicentro qualquer.
Na estação Paraíso, eu já toscanejava quando adentraram ao vagão e sentaram-se em minha frente dois rapazotes bem trajados: um era mais gordinho, com uma barba rala e bem feita, trajava um legítimo Armani preto, uma camisa Burberry azul, gravata também preta com listras diagonais azuis e um belo Gucci aos pés; já o outro tinha porte atlético, alto, vestia um terno Hugo Boss belíssimo, uma camisa Prada branca, gravata toda preta e um elegante sapato Fratelli Rossetti.
O gordinho, desde a porta, mostrava sua indignação, falando alto e gesticulando, sentou-se ao mesmo tempo em que questionava o amigo:
- Você entende?
O amigo, primeiro, olhou-me a sua frente e com um leve gesto com a cabeça cumprimentou-me – respondi da mesma forma – em seguida rangeu os dentes, apertou os lábios e balançou a cabeça num sinal negativo à pergunta do companheiro. Mas ele não desistiu, abrindo os braços e balançando-os insistentemente afirmava:
- Mas somos formados na FGV, caramba!
O “atleta” ponderava:
- Ser diplomado em Administração na FGV, apenas, não nos garante nada, Fernando.
O gordinho pareceu ficar ainda mais colapso, quase se levantando, ficou de lado no banco, de frente ao colega e, com as duas mãos espichadas com as palmas pra cima, esbravejava:
- Não fomos apenas alunos da FGV, fomos os melhores, Rafael. Os melhores.
- Eu sei, eu sei. Mas sermos os melhores da faculdade não significa que somos os melhores do Brasil.
- Como não? Se a GV é a melhor faculdade e nós fomos os melhores alunos...
Diante à sofística do colega, Rafael, o mais magro e sabiamente comedido, resolveu concordar pra tranqüilizá-lo:
- Tudo bem, Fernando. Agora calma. A gente ainda tem muitas empresas pra visitar, fica sossegado.
Antes que o companheiro tentasse lhe impor mais um sofisma esdrúxulo, o metrô parou e transferimo-nos para outro, na estação da Sé. Na tentativa de acompanhar o desfecho da discussão, esperei-os escolherem os lugares e sentei-me, novamente, defronte.
E a picuinha seguiu no mesmo tom, o gordinho, agora já sem o terno e com o buço e as costeletas minando suor, continuava a argumentar, com o indicador direito em riste, batendo continuamente na coxa esquerda, sobre a injustiça deles não estarem empregados. Para fortalecer sua persuasão, acrescia o fato de colegas de turma que eram medíocres, hoje, estarem em grandes empresas.
Após nos transferirmos novamente na estação Palmeiras – Barra Funda, lá estava eu, outra vez coadjuvando a cena facécia. Assim, depois de inúmeras reclamações, o gordinho já parecia desesperado, o atleta, então, pareceu comiserar e encerrar o assunto concomitantemente, utilizando, também, uma verdade absoluta que, no mundo moderno, descamba numa bela duma falácia:
- Calma, Fernando, calma. Nunca ouviu dizer que quando se fecha uma porta, abrem-se duas janelas?
O metrô foi parando na estação da Lapa, onde eu desceria. Assim, antes que o gordinho o respondesse com mais um de seus argumentos sofísticos ou o atleta emendasse outro raciocínio falacioso, fui levantando-me e, com uma das mãos em palmo, como se os impedisse de levantar, e a outra segurando a maleta, os disse:
- Aqui, caros colegas, qualquer empresa que se preze está do segundo andar pra cima. Então, do que nos servem as janelas se não tivermos as escadas?
Thiago Ferri | Deixe sua loucura aqui (2)
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